CONSCIÊNCIA TECNOLÓGICA.
¾
Oi, pai.
¾
Oi, filho. E aí, como foi a escola de governo[1],
hoje?
¾
Ótimo! Ouvi uma palestra diferente sobre globalização.
¾ E,
então?
¾ O
Prof. Comparato[2] se referiu
ao enfoque de domínio de mercado desde a idade antiga, agora de maneira
sofisticada. Entendi que com diferentes nomes no curso da História da
Civilização, a globalização tão-só se ocupou de favorecer uma minoria dominante
com privilégios, vantagens, acumulação de riquezas, bens terrenos e poder
especial que apenas reproduziram o materialismo injusto, desqualificando e
esquecendo-se, em decorrência, da sua totalidade, do elemento humano, do
respeito ao seu ser e ao seu direito natural, da sua dignidade moral e do seu
bem-estar de maneira global. No fundo, globalização significa aumento dos
excluídos e boa vida para os poucos ricos. Isto está errado e é preciso fazer
alguma coisa contra. O poder do Estado deve ser autônomo e exercido
independentemente de influências de grupos econômicos.
¾
Filho, isto é política e uma andorinha só não faz verão. Sou a favor da
exclusão da política. A política gera negativismos e irresponsabilidades ao
contrário das relações naturais e espontâneas. É preciso aprender, incorporar e
a praticar o amar ao próximo como a si mesmo.
¾ É,
mas duas andorinhas já fazem verão. Para que servem todas as tecnologias
avançadas se, ainda hoje, mais de 840 milhões de pessoas passam fome? Sou
contra os descartáveis. É muita burrice trocar uma ferramenta durável[3]
por outra descartável.
¾
Ocorre, filho, que a globalização é um processo histórico em curso. É um
processo de relações de necessidades dinâmicas sucessivas. Ela será boa ou má
muito depois do trânsito em julgado[4].
A única coisa que se pode fazer é retardá-lo ou acelerá-lo. E isto se faz
mediante catalisador negativo ou positivo, respectivamente. Mas, é preciso
muitas andorinhas em bandos harmônicos e coesos para tal proeza. Muitas
gerações aprenderão como se faz o verão. Os rios descem ao mar e nada pode
detê-los. A seca brava e os diques apenas podem retardá-los. Mas, vêm as
tempestades. E as enchentes rompem os diques e descem com maior velocidade.
¾
Não entendo você, pai. Você é muito contraditório. Uma hora você diz uma coisa
e logo se contradiz, e no real não faz nada do que fala. Não me interessam boas
mudanças sem que eu as possa desfrutá-las em tempo.
¾
Calma, filho. Gosto de você e não vamos brigar por isso. Apenas estamos falando
um ao outro em momentos distintos[5].
¾
Não me venha com essa de momentos. É preciso decidir e fazer.
¾
Justamente. Você já tem uma posição determinada. Isso é ótimo. Você conhece. E,
conhecimento está no segundo momento. Seja paciente comigo e deixe-me expor os
meus pensamentos. A decisão é do terceiro momento e é uma realidade subjetiva.
O fazer acontecer é realidade objetiva que envolve momentos biográficos e
históricos. Para escolher você já está diante de algumas soluções viáveis e aí
é questão de optar. Para determinar você já está com a opção formalizada com
conhecimento do método e aí é só implementá-la. Mas para decidir é preciso
ainda buscar e avaliar as soluções viáveis para a escolha e daí determinar a
opção e o melhor método. Só se decide quando não se sabe o que fazer diante de
impasses. Para decidir é preciso pensar, avaliar, raciocinar, pesquisar, comparar,
analisar, selecionar, etc., no sentido do triunfo sensato. Tudo isso requer
tempo. Não sendo o impasse questão de vida ou morte, há tempo suficiente para
tomar sol na praia e banhar-se de decisões na direção de resultados favoráveis.
¾ E se fosse questão de vida ou morte?
¾ Aí
é necessidade de primeiro momento. Logo, você não pode decidir nada. Não há
tempo para pensar[6]. Tem que
reagir. Você determina e age se sabe. Se não há tempo para nada, você deixa por
conta dos seus reflexos para superar o impasse. Se não está certo de vencer,
você escolhe dois dos caminhos e opta. Foge, agora, para poder enfrentar com
mais recursos, depois. Daí, sobra-lhe, ainda, mais três tempos: o segundo para
conhecer, o terceiro para pensar já atuando e o quarto para as reflexões.
¾
Mas é preciso reagir e agir logo para que todos desfrutem os seus direitos,
ainda, em vida. Fome, miséria, doença, é questão de vida ou morte.
¾
Certo. Mas, isto já é momento histórico[7].
Envolvem-se grandes grupos e seus interesses. Deixa de ser momento biográfico.
Em guerra de trincheira, só um general idiota enfrentará um exército de dez mil
homens contra cinco mil dos seus. Agir e atuar para vencer requer paciência,
projeto, planejamento, estratégia, conhecimento e prática implicando muitas e
muitas andorinhas ao mesmo tempo. Estas precisam ter um mínimo de auto-estima
para sobreviverem melhor despertando-lhes o querer e boa disposição. Ainda, há
que aguardar o momento adequado para as condições favoráveis de vôo para a
retomada do processo da preservação da espécie.
¾
Não me complica mais com essa história de momentos.
¾
Está bem. Essa história de momentos é bem velha, mas a sua conscientização na
aprendizagem é coisa nova. Está aí no seu dia-a-dia. Só é preciso a sua tomada
de consciência. Contudo, voltemos ao assunto da política. Política vem de
polícia ¾
guardar, fiscalizar, tomar conta, proteger à força com armas.
¾
Não pai, Política vem de pólis ¾ cidade, administração das
relações sociais.
¾
Está bem. Pólis era cidade-estado. Cidade com governo próprio, com domínio da
organização do poder coativo. Mas, como surgiu a cidade-estado? Cansadas das
migrações e conflitos ¾ pela disputa de uma mesma região abundante de alimentos ¾, tribos diversas preferiram
fixar-se numa determinada área. Colocavam guardiães armados não só para
proteger a cidadela contra os inimigos e contra os animais predadores que
atacavam as criações. Daí o poder de polícia para tomar conta das tribos
vencidas e tornadas escravas. Nasce, aí, a sociedade de classe. Os antigos
guardiães evoluíram-se para barões feudais, e daí, para rei e seu exército
subsidiados pelos burgueses. Depois, para Estado e seus poderes
constitucionais. Hoje, temos a política internacional que influi nos destinos
das nações. A política, em síntese, é ao mesmo tempo ciência e arte de conduzir
as relações sociais cujo fim significa exatamente fim de uma organização social
para cuja coesão sejam indispensáveis as relações de domínio e poder fundadas
no uso, com exclusividade, das forças armadas ou regida pelo uso exclusivo do
poder coativo. É preciso desenvolver uma política exclusivamente racional e
consensual sem coações para a conquista de uma organização social coesa e
feliz.
¾ E
daí, que isso tem a ver com a sua simpatia pela globalização e a favor dos
descartáveis? Insisto, ainda, que o Judiciário deveria ser ativo e não só
passivamente fazer cumprir as leis e restringir-se ao que só consta nos autos.
Um juiz perguntado sobre isso, disse que ele é apenas escravo das leis. Ora, um
certo empresário influente fez dezenas de leis. Logo, conclui-se que o juiz é
escravo desse empresário. Estou certo?
¾
Não se trata de simpatizar pela globalização, nem com as técnicas e nem com a
tecnologia dos descartáveis. A minha simpatia é para com o homem. Sou avesso e
aversivo a todo o mal que o torna doente, física ou psiquicamente. No caso do
juiz, momentos históricos diferentes interagem-se, não validando a assertiva
por inteiro, embora o raciocínio tenha perseguido o caminho da lógica. Para o
juiz, tem-se que as leis são realmente boas e justas. Sua força é estática e
apropriada num país estável sem dinamismos corruptos e ímprobos. Se elas vêm
mal direcionadas[8] não compete
a ele corrigi-las. No tocante à globalização, como já disse, ela é um
processo-em-curso irreversível. É resultado de outro processo que sofreu uma
desaceleração repentina provocada pelo alto custo na sustentação da guerra fria
na disputa pela hegemonia ideológica. As megatransnacionais americanas estavam
perdendo mercados para as empresas asiáticas e para as da união-européia. A
URSS, por seu turno, previa o distanciamento dos seus sonhos comunistas,
indefinidamente. Resolveram, então, a implementar um certo desarmamento
gradativo com a democratização do mundo no sentido da globalização da
produtividade. Em conseqüência, houve distúrbios sociais, desempregos, recessão
econômica, crises e mudanças nos hábitos, costumes e usos em todos os países,
mormente, nos não-democráticos que, de repente, por força do poder econômico
mundial, tiveram que aderir ao processo-em-curso.
¾
Pai, dá para expor curto e grosso?
¾
Calma. Chego lá, rapidinho. Tudo isso já é passado histórico e história não
existe na realidade concreta do aqui e agora.
¾
Mas a história é o homem que faz.
¾
História é o passado. E o passado não existe agora. O amanhã passa por hoje.
¾ Assim, não dá mais para continuar a conversa. Como a história não existe?
¾
Novamente, estamos cruzando os diferentes momentos. Já estamos confundindo o
histórico com o biográfico e misturando os seus quatro momentos, a sua subjetividade
e a sua objetividade. Assim, é melhor parar mesmo. Mas, antes, deixe-me
concluir. Num dado momento, pode até ser o contrário. Que a história é que faz
o homem atual. Os acontecimentos do aqui e agora são gerados pelas relações de
necessidades dinâmicas para suprimentos imediatistas. A História fica apenas
nos registros bibliográficos, memória eletrônica e no subjeto[9]
das pessoas interessadas. Necessário é que se aumente esse número de pessoas
interessadas atingindo a maioria da população mundial para que haja realmente
as consciências-sociais das causas e efeitos, dos motivos e conseqüências, além
das razões e resultados de cada interação geradora dos momentos históricos
relevantes. Tudo isso, não para mudar o comando das relações, mas para viver
globalmente em nível cada vez melhor, condignamente. Este é o caminho adequado
e eficaz para se obter o equilíbrio entre as forças antagônicas no passo de
trazer a estabilidade na distribuição da produtividade. E se pensem já na
facilidade de obter o seu resultado em caráter de esbanjamento haja vista a
capacidade do intelecto dos cientistas da engenharia tecnológica mal
aproveitada pelos maus investidores universais, mas bons investidores
particulares.
¾ De
que jeito?
¾
Despertando a auto-estima e a disposição, começando por pensar no sentido de
aprender a desenvolver o pensamento propriamente dito, já com resultados na
prática. A tomada de consciências é o início da habilitação para o fazer bem o
bom e o bem, querendo, com juízo.
¾ É,
mas as pessoas não gostam de pensar. Fogem daquilo que lhes parecem complicado.
Assim, vai ser impraticável qualquer proposta de mudança.
¾
Justamente. Contudo, não se trata de lhes propor mudanças, mas conscientizá-las
de que as mudanças já estão ocorrendo à revelia quer aceitem ou não. E as
pessoas não podem ficar paradas no tempo. Quanto mais fogem de aprender a
pensar, menos auto-estima têm. Mal conservam o que têm. Estão sempre fazendo a
mesma coisa do mesmo jeito. O tempo passa e nada muda para quem não pensa. Quem
não pensa acostuma-se e habitua-se na rotina. E há os que se acostumam até em
ficar sempre esperando uma melhora e nada lhes acontece. Estão sempre cumprindo
ordens e regras sem saberem por quê. Você já ouviu falar no ditado “se a cabeça não pensa, o corpo sofre“ ?
¾ E
como, então, despertar e aumentar a auto-estima das pessoas?
¾
Ora, pensando certo. Pensar certo é fácil. É só se dar conta do que pensa do
modo automático questionando o que faz do modo habitual e reformular o que já
está obsoleto. Primeiro, pensa-se no corpo: mantém-se a sua higiene diária, a
boa saúde cuidando, logo, qualquer dor e alimentando-se adequadamente. Andar,
diariamente, o suficiente para manter os movimentos musculares sem problemas.
Massagem e asseio para os bons reflexos. Passear para não se envolver na rotina
do trabalho ativo. Cuidar da beleza do corpo. O sorriso sincero e constante
embeleza o corpo muito mais do que qualquer cosmético. Descansar e dormir bem.
Segundo, pensa-se na mente: conhecer, ler, estudar, informar-se, atualizar os
conhecimentos, aprender a fazer bem as coisas das necessidades constantes e
inová-los se necessário, aprimorar-se naquilo que gosta de fazer para
sobreviver. Terceiro, pensa-se no pensamento propriamente dito: ter o prazer de
concluir, o sorriso de quem dá um xeque-mate, a expectativa de um planejamento,
o orgasmo de uma idéia revolucionária, a alegria dos resultados de uma
pesquisa, a satisfação de uma decisão acertada, a certeza triunfante de um
projeto ou de um processo-em-curso e desenvolver conhecimentos novos úteis, ou
inventá-los, etc. Quarto, pensa-se no espírito, intrapessoal e
interpessoalmente: refletir, pensar na vida, no mundo e sua história, na sua
biografia, em Deus, interagir com bom humor e equanimidade, filosofar e orar
com amigos, cultivar a qualidade das relações familiares, profissionais e
sociais, etc.
¾ Os
excluídos, sem chances, então?
¾
Todos têm chances para a tomada de consciência. Mais fácil um excluído tomar
consciência do que qualquer dos não-excluídos.
¾
Como?
¾ O
excluído já vivencia a miséria e sabe como ela é. Tem necessidades prementes
que não são supridas, satisfatória e regularmente. Ele convive o dia-a-dia
apenas nos seus primeiros momentos biográficos. Trata-se de vida ou morte. Por
isso, ele tem potencial imediato para matar, furtar, disputar, brigar,
assaltar, mentir, mendigar, manipular pessoas, suicidar, consumir drogas,
prostituir-se e submeter-se a qualquer coisa em troca de sua sobrevida por mais
um pouco de tempo. Habitua-se a este estilo. Por ser hábito, pode ser
sensibilizado. A tomada de consciência, entretanto, ocorrerá amplamente
mediante convivência noutro estilo no qual se sinta protegido com as garantias
certas de melhores condições de sobrevivência. Os aumentos de excluídos farão
os seus causadores, também, darem-se conta disso. Preocupar-se-ão, por
temê-los. Tentarão neutralizá-los.
¾
Como?
¾
Depende do tamanho do medo dos causadores preocupados. Mas já se vê aí
distribuição de alimentos em vários pontos onde se concentram excluídos em
grande número. Eles têm potencial para promover o caos. Pois, no limite da
tolerância, eles invadem tudo para sobreviver por mais um pouco de tempo.
¾
Mas, e os descartáveis?
¾ Os
descartáveis e os recicláveis são fenômenos, atos e fatos reproduzidos,
necessariamente, para compor uma seqüência do processo-em-curso. À primeira
vista, os descartáveis manterão alta rotatividade da produção, transformando
diferentes desempregados em profissionais ativos ¾ temporários, autônomos,
ambulantes, microempresários e terceirizados. Dar-se-ão conta da necessidade do
aprendizado técnico e tecnológico de alta
qualificação. Hoje, por exemplo, o uso do processador pessoal (PC) e o
uso da telefonia celular já se tornam uma necessidade artificial de primeiro
momento em conexão com os demais momentos. Os recicláveis manterão baixos os
custos de matérias-primas. É evidente que os bens duráveis evitam esforços
inúteis. Os ricos lumpenizados psiquicamente são ávidos nos lucros e sabem que
bens duráveis não lhes dão. Os bens duráveis geralmente são forças estáticas
apropriadas para um mundo ideal estável com todos beneficiando-se igualmente do
que é produzido. Ao passo que os descartáveis e os recicláveis são forças
dinâmicas num mundo social instável cheio de desequilíbrios econômicos com amplos
conflitos de interesses. Entretanto, o novo paradigma em curso criará situações
estáveis para as necessidades de primeiros momentos. São os seus geradores a
força de interesse geral geridas pelos poderes públicos, os avanços da
engenharia de técnicas e dos conhecimentos novos, da alta tecnologia
sofisticada e o seu conseqüente dinamismo acelerado nos setores privados. A
necessária integração ampla e harmônica entre os interesses públicos e privados
resultará na consolidação das forças cinemáticas sociais dos seus terceiros
momentos histórico-biográficos.
¾
Pai, você já se complicou de novo.
¾
Perdão, filho. Num instante me desconectei da rede e não me dei conta do seu
desconhecimento da teoria das consciências na aprendizagem e desenvolvimento.
Façamos o seguinte: quando digo primeiro momento, refiro-me à saciação de uma
necessidade no aqui e agora. Quando cito o segundo momento, falo da prorrogação
dessa saciação por um prazo possível. O terceiro trata da solução dessa
necessidade que se repete todos os dias. O quarto refere-se ao dar-se conta
desses três momentos integrando-os ao triunfo sensato. Tal necessidade sendo do
indivíduo, dizemos momento biográfico, sendo de qualquer par coeso, grupo ou a
sociedade humana, dizemos momento histórico. À interação integrativa entre
fatores coletivos de necessidade com os pessoais diz-se momento
histórico-biográfico. Assim, a força estática[10]
das relações sociais refere-se ao primeiro momento histórico, a dinâmica, ao
segundo, e a força cinemática, ao terceiro. A concentração dessas forças
estruturadas numa só unidade para uma determinada finalidade saudável é a força
harmônica, própria do quarto momento.
¾
Então, a tecnologia avançada é do terceiro momento histórico?
¾
Sim. É para facilitar as situações de todos os primeiros momentos biográficos e
históricos. Mas as suas reais finalidades universais são e estão sendo
desviadas pelas forças do negativismo para benefícios particulares. A
tecnologia do consumo globalizante tende a profissionalizar e intelectualizar o
trabalhador trocando a sua força braçal pela mecanização da sua visão cerebral ¾ memória e reflexos psíquicos. O
perigo é a habituação que o fará esquecer, de vez, o que há de melhor e maior
valor ¾ a
sua autenticidade que dá o calor da sua iniciativa própria, sua sinceridade,
espontaneidade e prestimosidade que fortalecem a sua solidariedade
incondicional. Os excluídos aumentarão e serão as maiores vítimas desse
processo-em-curso altamente nocivo aos desígnios da valorização da dignidade
moral humana e do respeito à vida natural, à autonomia da individualidade e à
boa saúde de qualquer cidadão do mundo.
¾
Então, você está querendo me confirmar que a globalização é péssima?
¾
Depende do lado no qual o indivíduo a vivencia.
¾
Não me enrola, pai. Uma coisa ou é boa ou não é.
¾
Calma, filho. Há quatro lados principais na globalização: o lado da vítima, o
lado do beneficiado, o lado da humanidade e o lado do ser autêntico. Cada qual,
obviamente, terá o seu ponto de vista apropriado. Se a globalização elimina
toda uma categoria de profissionais deve sê-la má para estes, não acha? Os seus
elementos encontrar-se-ão numa situação de vida ou morte e, então, declararão
guerra. Os lumpenizados não se organizam sob lideranças porque lhes falta a
auto-estima. É preciso provocar o acordo, a conciliação, o consenso e o pacto.
¾ E
em que lado você está?
¾ Em
primeiro, estou no lado do meu ser autêntico. Em segundo, no seu lado, aqui e
agora. Em terceiro, no lado da saúde da vítima e do beneficiado. Em quarto, no
lado do todo.
¾ Por
que essa ordem, essa separação?
¾ O
que está em ordem, não está separado do todo. São partes importantes do todo. É
preciso que as partes estejam juntas, interligadas e funcionando para o
benefício do todo, para que este, por sua vez, possa proteger todas as suas
partes. Se três das quatro partes dum todo estão saudáveis é necessário
concorrerem para recuperar a parte doente, sem se deteriorarem, com a ajuda do
todo maior que implica toda a sua extensão exterior.
¾
Por que do meu lado?
¾
Por que pai e filho são extensões um do outro, também.
¾
Como? O que quer dizer, assim?
¾
Todos, filho, não são tão-só o que acham que são. Você, por exemplo, não é só o
seu corpo, a sua mente e o seu espírito integrados. Você é você mais a sua
extensão próxima no aqui e agora. Logo, você é também o chão que pisa, o seu
objeto de uso, a camisa que veste, o irmão que lhe ajuda, o professor que lhe
instrui, etc., no seu aqui e agora. Você é tudo que o seu corpo, a sua mente e
o seu espírito captam e registram em suas interações com o seu meio ambiente e
lhe é útil. Você é o ser mais importante do universo para você. Por isso,
cuide-se e aumente a sua auto-estima. Isso não é egoísmo e nem narcisismo. Os
adeptos destes têm falsa auto-estima; ou, estão com o auto-engano em alta. O
que poderiam compartilhar com os outros acumulam e dirigem somente para si. São
falsos altruístas. Só dirigem o que têm aos outros com retorno maior garantido.
São portadores dessa patologia que os lumpenizam psiquicamente. Portanto, eles
precisam dar-se conta disso para serem ajudados.
¾
Pelo que estou sentindo, você me desanima. Acho que as suas proposições não
resolvem nada mesmo, nunca.
¾ Na
verdade, filho, tudo já está resolvido. Logo, não é para se desanimar.
¾
Agora, sim, você está é viajando. Como pode tudo estar resolvido se você mesmo
demonstra um processo-em-curso?
¾ Há
dois mil anos, Cristo trouxe a semente da solução. É só cuidá-la para o seu
crescimento saudável. Se você tem consciência dessa solução você é uma terra
fértil cuja semente germinará, crescerá, fortalecerá e dará frutos cem por
um. Viva a sua vida amando ao próximo
como a si mesmo que não só já está cuidando do resolvido mas acelerando a
conscientização em massa iluminando as trevas de cada cidadão sem luz
fazendo-lhe diferença, independentemente do processo-em-curso.
¾ Dá
para ser mais claro?
¾ A
iniciativa é sua. O maior dos crimes é a subjugação da iniciativa de alguém.
Você deve purificar-se para receber a semente. A semente é o amor. Se você
recebe o amor no seu subjeto, a inteligência vem no seu objeto porque ambos são
inseparáveis. Você não é responsável pela construção de um mundo melhor, mas
pela do seu mundo subjeto. Sem antes construir o seu mundo subjeto, você não
pode desperdiçar energias preocupando-se com os 840 milhões de famintos no
mundo de hoje. Você e nem ninguém nada poderá fazer para acabar com a miséria
deles, infelizmente. Pois, as mudanças por processos são variáveis, parte por
parte, e passo a passo. Por isso são imperceptíveis enquanto construção. Absurdo
querer tirar o cisco no olho de outrem com uma trave no seu. Nem agora, nem
nunca. Só os que botaram os ciscos nos olhos deles podem fazer algo pelos
mesmos ou estes próprios enquanto vivos, enquanto tiverem forças para comerem,
mas juntos e coesos. O que se vê, ainda, é que eles disputam o pão entre si e
tomam o que já é do seu companheiro, assim como cães ao redor daquele que lhes
joga pedaços de carne. Não há lugar para plantar a semente do amor onde só
florescem o egoísmo, o ódio, a disputa, a inveja, a ganância, a soberba, o
ciúme, a luxúria, a avareza, a preguiça e outros negativismos[11].
Entretanto, juntos e coesos poderão sensibilizar algum outro grupo coeso
potente que poderá trazer-lhes os manás e ajudar a lhes varrer os negativismos
para que possam plantar a boa semente e aprender a reproduzi-la numa terra pura
e fértil. Todavia, tal grupo deverá estar pronto para enfrentar os que não
querem a sua intervenção. Há sinais evidentes e algumas amostras da ação na
luta contra a miséria e a fome no mundo, que tanto o preocupa. Estão aí, as
variadas associações filantrópicas, grupos humanitaristas, a ONU, ONG (as
organizações não-governamentais), os religiosos de todos matizes e muitas
pequenas entidades locais que agem nesse sentido. Entrando ou dirigindo em
qualquer destes, creio que amenizará um pouco as suas preocupações. Mas é
preciso estar apto.
¾ É,
agora penso que estou começando a entender o que está querendo dizer. Como é
mesmo essa teoria das consciências dos quatro momentos?
¾
Acho bom você ler as obras relativas. A aprendizagem é a base e a ferramenta
principal da construção do mundo subjeto, em alto nível.
¾
Ferramenta? Mundo subjeto? Por que não subjetivo?
¾ É
meu filho. Quais as ferramentas principais para se construir um bom prédio?
¾ Há
muitas. As boas máquinas, o emprego de matéria prima e mão de obra de alta
qualidade são imprescindíveis, acho.
¾
Sim. Contudo, não haveria nenhum prédio bom sem o seu projeto e sem a boa
disposição e interesse do seu empreendedor de boa índole com os seus recursos
financeiros disponíveis. O projeto completo deve mostrar o prédio idealmente
inteiro, como se já estivesse funcionando. Demonstra-o por dentro, por fora,
debaixo e a sua extensão, com todas as suas peças necessárias, desde o
histórico do planejamento e estratégia de construção, memorial descritivo, sua
especificação, público alvo, possibilidade, prazo de entrega, pesquisas
objetivas para a validade do empreendimento, cálculos de engenharia,
custo-benefício, previsões, provisão, seleção quali-quantitativa de materiais e
recursos humanos necessários, marketing, segurança, prudência, zelo, aptidão,
objetivo e missão social, tudo!
¾
Mas, não estou conseguindo ligar isso aí à aprendizagem. Dá para ser mais
claro?
¾ A
aprendizagem é o projeto, o seu implemento e o desfrute real. A prática de
morar no prédio é o primeiro momento da aprendizagem e por isso é o fundamento
de todos os demais momentos que coexistem justamente para conservá-lo, estável,
sólido e útil sempre. O prédio é o indivíduo. Ou seja, toda a sua realidade
subjetiva em correspondência harmônica com a sua realidade objetiva. Assim como
não se faz um prédio útil e sólido sem o seu projeto, nada o indivíduo pode
ser, estar, ter, fazer e acontecer sem que aprenda primeiro. E aprender é tudo,
pois, aprende-se o que pode fazer para saciar-se, a conhecer a si próprio e a
acrescentar mais conhecimento ao que já aprendeu. Aprende-se a fazer o que deve
e o que não deve, a pensar e raciocinar bem, como se manter com saúde, ser
feliz, como viver bem com os demais, enfim, a ampliar a consciência! Portanto,
cada indivíduo deve desenvolver o projeto de construção do seu mundo subjeto e
ocupar-se de criar novos conhecimentos desenvolvendo aptidões úteis, boas
idéias e saberes eficazes e éticos. Mas é preciso saber que um projeto e a
trajetória do seu implemento é apenas a ida. A sua volta é que dá o
conhecimento complementar ratificado ou retificado à medida do desfrute e uso
dessa sua realidade pronta. O seu mundo exterior precisa de você apto, com
saúde e importante. Faça o seu projeto, querendo, e saberá o que
aprender, como aprender e à medida de sua interação com a sua realidade
objetiva ¾
treinamento, prática, implemento, desfrute e produtividade compartilhada ¾ poderá inová-lo, modificá-lo,
ajustá-lo, adequá-lo, reinventá-lo, aprimorá-lo ou rompê-lo para viver novos
paradigmas em níveis superiores. Aprenderá a estruturar o seu tempo em quatro
momentos biográficos e históricos para ocupar-se de viver e administrar a sua
liberdade autêntica aprendendo o necessariamente bom para ambas as suas
realidades. Certamente, o amor e a inteligência estarão na sua caminhada. Só
assim você estará fazendo, realmente, uma diferença para construir um mundo
melhor para todos.
Enfim, é
o uso da consciência tecnológica na construção do melhor e maior prédio do
mundo, o mais sólido e durável, nunca descartável, o único e inigualável, que é
você mesmo, que o fará o mais feliz cidadão universal, pois, saiba que por que
você existe e existirá assim é que pode conceber a existência de si mesmo, dos
outros e de tudo o mais!
[1] Escola de Governo. A Escola de Governo, mantida pela Associação
Brasileira de Formação de Governantes, é uma entidade educacional, sem intuitos
lucrativos, destinada a formar dirigentes públicos e a atuar como centro de
elaboração de projetos de organização institucional e de políticas públicas.
Tem completa autonomia didático-cientifica e atua sem quaisquer vinculações de
ordem ideológica ou político-partidária.
[2] Prof. Comparato. Dr.
Fábio Konder Comparato é renomado jurista e autor de vários livros de Direito.
[3]
Ferramenta durável. Por exemplo, há mais de 40 anos, inventou-se
enxada cujo corte permanecia intacto, por mais que a usasse, por ser feito de
material especial. Contudo, embora fosse a melhor enxada já produzida pelo
homem, a sua comercialização era economicamente inviável, porquanto não se
prestava para fins lucrativos. Assim como essa enxada há inúmeros outros
produtos, principalmente, remédios eficazes que não são comercializados pelo
mesmo motivo.
[4]
Trânsito em julgado. Termo jurídico, com relação à sentença,
quando já passou em julgado, sem mais recursos. Muitas mudanças efetivadas,
boas numa situação de primeiro momento em determinada época, poderão trazer
sérias conseqüências em tempos mais adiante.
[5]
Momentos distintos. Numa conversa, pode haver cruzamento de
momentos. Por exemplo, uma pessoa fala na situação de terceiro momento. Ou
seja, usa o raciocínio, a análise, o pensamento e exclui o sentimento que é do
segundo momento e a emoção que é do primeiro momento. A outra pode responder,
por exemplo, na situação de primeiro momento. Ou seja, usa apenas a emoção e a
sensação de necessidade premente...
[6] Quando
se fala em reação, ação, atuação e interação, trata-se de movimentação,
incoerente com o ato de pensar com eficácia que requer uma pausa ou uma parada.
A movimentação adequada exige automação pelos reflexos condicionados,
incondicionados, respondentes e operantes por conhecimento consolidado e de
caso pensado, repensado e refletido que já deu certo.
[7]
Momento histórico. Trata-se de um estado ou uma situação
social significativa envolvendo determinada coletividade, diferenciando do
momento biográfico que se trata de situação individual significativa.
[8] Mal direcionadas. São leis mal feitas para a maioria ao mesmo tempo bem feitas para uma minoria interessada. É preciso equilibrar os conflitos e as controvérsias no poder legislativo para que determinadas leis sejam aprovadas não para favorecer uma minoria desfavorecendo a maioria, mas para beneficiar todos indistintamente.
[9] Subjeto. Neologismo introduzido para significar o
que se processa no interior do sujeito em contraposição ou em correspondência
harmônica com o termo objeto ¾ aquilo que ocorre no exterior do
sujeito. Veja “Glossário 4 Momentos”
[10]
Força estática, dinâmica, cinemática e harmônica das relações sociais. Veja
Consciência Interativa.
[11] Negativismos.
Veja “Os momentos Negativos – Megaconsciência”