CONSCIÊNCIA INTERATIVA.

 

 

A interatividade é um fenômeno social que implica a reação, a ação, a atuação e a interação dentro do contexto do comportamento, da conduta, do procedimento e do vivenciamento quer biográfico (para o indivíduo em particular) quer histórico (para o social) ou em ampla conexão de interdependência biográfico-histórica ou histórico-biográfica. Logo, a reação, a ação, a atuação e a interação operam no curso de uma determinada atividade; onde pessoas, utilizando os procedimentos tecnológicos disponíveis, avançados ou não, podem se interconectar, direta, indireta ou virtualmente, quer para finalidades sociais ou individuais — as específicas, gerais e comuns — quer para se beneficiar do que se lhes oferecem.  Os meios, os recursos e os instrumentos para as operações respectivas são relativos, especiais, seletivos, provisórios ou não, disponíveis, tanto podendo ser manuais quanto tecnológicos, sofisticados, simples ou complexos, porém, de conformidade com a necessidade e a situação do momento.

Assim, entre reação, ação, atuação e interação para o triunfo as suas diferenças específicas se revelam na inter-relação do sujeito e o objeto, sejam estes individuais ou coletivos — materiais ou pessoais.

 

 

Daí, se o sujeito age sobre o objeto, este reage contra a ação do sujeito.

 

Assim, quando somos o sujeito da ação, agimos.

 

Quando somos o objeto da ação, reagimos.

 

Quando, ao mesmo tempo, somos sujeito e objeto num mesmo processo de ação e reação, atuamos.

 

 

Quando reagimos, agimos e atuamos numa relação geral dentro de um certo contexto definido, ora como sujeito e ora como objeto, respectivamente, interagimos.

 

 

Observe-se que quando agimos, o processo da ação requer um intervalo de tempo, cuja motivação inicial ou qualquer intervenção necessária deve ser efetivada, tempestivamente, para que ao final tenha conseqüência, ao menos, desejável. Na reação, geralmente, o tempo de defesa ou resistência é curto. A reação imediata depende do perigo iminente, ou do pedido insistente, do teor de vontade do reagente e da intensidade da ação contrária. Na atuação, o tempo é mais ou menos previsível, porquanto as reações e ações respectivas dos sujeitos envolvidos (ora ativos e ora passivos), regularmente, se alternam até o desfecho.

Na interação o tempo, normalmente, é indeterminado ou incerto, contudo, em havendo prazo de cumprimento, há possibilidades não só de sua antecipação quanto de sua prorrogação. Há também a desistência, ou o prosseguimento em caráter quer lógico, ilógico ou obsessivo.

 

Em muitas situações a interação e a interatividade se coincidem e para distingui-las é preciso se dar conta de que a interação está voltada mais para o gênero determinado integrando a reação, ação e atuação; ao passo que, a interatividade está representando, dentro do sistema holístico relativo, o contexto genérico mais amplo. Envolve-se, assim, todas as interações conexas e respectivas, quer ativando recursos da informática, da tecnologia ou de outros meios, direta ou indiretamente, de maneira imediata, mediata ou tempestiva, regular ou não; quer conectando-se com múltiplos interagentes, especiais ou não, mas sempre no passo da obtenção do que é de interesse.

 

Cumpre dizer também que a interatividade requer aproximação relativa dos sujeitos interativos cuja energia de atração ou de coesão que alimenta as suas relações estáticas, dinâmicas, cinemáticas e harmônicas liga-se, respectivamente, ao reforço, motivação, interesse e à disposição física e psíquica dos usuários dos respectivos instrumentos interativos.

 

A reação caracteriza-se como defesa, recuo, passividade, fuga, esquiva, ocultação, a luta defensiva, a potência e força de resistência ou enfrentamento na tentativa de fracassar, frustrar, anular ou mesmo de vencer a ação contrária.

As emoções mais freqüentes nas reações são o medo e a raiva. Embora possam sobrevir as sensações de alívio ou de dor e o estado de alerta nas reações, também se experimenta a alegria, a calma e o prazer. A reação ocorre predominantemente numa situação imediata para a saciação de uma necessidade premente ou em resposta a um estímulo presente para o alcance do reequilíbrio ou da estabilidade. Por sua natureza, a raiva, medo, calma, prazer e alegria ¾  emoções chamadas primárias ¾, são de curta duração, ao contrário dos sentimentos e dos sensos, que são mais demorados.

 

A ação caracteriza-se como poder da iniciativa, provocação, investimento, ataque, arranque, alavanca, empurrão e avanço passo a passo. Inclui-se a afronta, o arrojo, a agressão ofensiva, audácia, coragem, atrevimento, a luta ofensiva, a agressividade, o avanço por paixão, o contra-ataque ofensivo, a transparência, o risco, e a conquista. Também pela ameaça, recuo, desvio e drible ou finta para aproveitar a força da reação contrária. Aqui se insere uma pequena intervenção da intenção (terceiro momento) quando se trata de teatro, disfarce ou fingimento, caracterizando a reação e ação no ato de atuar (conexão do segundo com o terceiro momento).

 

Não há passividade na ação. Se houver alguma semelhança, o desejo não é de recuar, mas de mostrar poderio, avançar para ameaçar, ou de descansar para recuperar energias numa trégua estratégica.

Portanto, a ação é puramente ativa, provocadora e ofensiva, ainda que haja intervalos de parada.

Nesses intervalos incluem-se repouso, descanso, relaxamento, consolidação, expectativa, prontidão, comemoração e desfrute tempestivo.

Nas ações predomina o sentimento que não é senão a relativa emoção primária prorrogada, intensa, mista ou constante.

Daí, o sentimento pode formar-se por derivação, mistura fixa ou variável e por alternância das emoções primárias intensas sejam estas controladas, disfarçadas, ou não.

Uma raiva acumulada, por exemplo, cuja manifestação se prorroga, intensa e sucessivamente, transforma-se em um sentimento conhecido por ódio.

 

 

Os sentimentos ¾ rancor, ira, ódio, agressividade, vingança, fúria e outros parecidos ¾ provêm da raiva prorrogada, acumulada, ou intensificada.

Os sentimentos ¾ temor, pavor, pânico, terror e horror ¾ são do grupo do medo prorrogado, intenso ou acumulado.

Os sentimentos ¾ ansiedade, a coragem, a frustração, a angústia e depressão ¾ pertencem ao grupo derivado e misto do medo e da raiva.

A euforia deriva-se da alegria intensa ou descontrolada. A expectativa, a esperança e o entusiasmo contêm a calma, a alegria e a crença de prazer. A melancolia e a tristeza são misturas das emoções primárias leves acrescidas de suas variações alternadas motivadas por uma recordação presente de momentos bastante prazerosos, alegres e felizes vividos com pessoa querida que não se repetirão jamais, ou tão cedo, cuja lembrança saudosa manifesta-se em lamento, dor moral, prantos, lágrimas, desânimo, prostração e isolamento. A tristeza pode ser causada também por uma mistura de mágoa, pesar e lástima. Na mágoa tem mistura de ressentimento, medo, raiva, inconformismo, desgosto, amargura e tristeza causada por ofensa e desconsideração de pessoa querida.

Esses sentimentos são comuns nas ações e suas conseqüências boas ou más.

As atuações referem-se aos procedimentos. Bem diferentes dos comportamentos que se caracterizam pelas reações. E, também, muito diferentes das condutas que dizem respeito às ações.

Contudo, as atuações são constituídas das reações e ações de maneira alternada e seqüencial do mesmo indivíduo numa atividade definida. Porquanto, o indivíduo é sujeito e objeto no mesmo processo da ação e reação. As atuações são as essências dos processos que ditam as normas dos seus procedimentos, constituídas através da seleção das classes de reações e das séries de ações consideradas.

As atuações se orientam pela atenção, senso (o sentido da razão), raciocínio lógico e paciência que dão subsídios à calma e à tolerância. Assim, o bom senso e o discernimento dão o colorido certo e ameno às emoções e aos sentimentos.

A eficiência, a eficácia e a qualidade da idéia, da forma, do conteúdo, do estudo e análise, do planejamento, dos recursos, dos instrumentos, da técnica, do pensamento, do argumento, do método, do processo e seu saneamento são fatores preponderantes dentro de uma atividade definida ou de um procedimento adotado para qualquer atuação saudável.

 

A interação saudável e cônscia persegue ou busca sempre um triunfo sensato, ou dá chance de acontecer a oportunidade feliz, nunca o fracasso ou a frustração.

Logo, a interação ¾ integradora da reação, ação e atuação relativa ¾ busca um resultado final positivo para a sua consolidação e deleite da maneira saudável, ética e justa.

O triunfo sensato decorre, então, da interação interpessoal ou social saudável, que considera a observação objetiva e releva o bom comportamento, se orienta pela conduta ética social correta e pelo procedimento eficiente, eficaz e qualitativo na atividade produtiva.

A interação saudável exige a presença do bom juízo.

O  bom juízo aliado ao bom senso tem poderes de afastar as emoções negativas e os maus sentimentos conservando a calma, a tolerância, a paciência e a paz de espírito no passo de desfrutar a alegria, o prazer e os bons sentimentos compartilhados, de maneira estável, nas interações sociais.

 

Os bons recursos da reação conservam a estrutura estática das relações sociais. Os da ação, a sua estrutura dinâmica. Os da atuação, a sua estrutura cinemática. E, os da interação pelo triunfo sensato mantêm a sua estrutura harmônica.

 

A toda ação corresponde uma reação em sentido contrário. A igualdade de forças determina a estabilidade ou o equilíbrio. Forma-se, então, uma estrutura estática.

Quando há o desequilíbrio entre duas forças antagônicas, há a força passiva num lado e a força ativa no outro. Forma-se, assim, uma estrutura dinâmica.

Quando ocorre a sucessividade de ações e reações retardando ou acelerando a movimentação do sistema para um certo sentido, forma-se uma estrutura cinemática.

Quando a harmonia se faz presente nessas três estruturas integradas se diz estrutura harmônica.

De modo análogo, nas relações sociais (interpessoais), desenvolve-se esses quatro tipos de estruturas.

 

A estrutura estática ocorre por meio do acordo * nas situações imediatas.

A dinâmica obtém-se por conciliação *, cessão e reconciliação, tempestivamente.

A cinemática surge pelo consenso * na atividade em curso.

E a estrutura harmônica é deliberada pelo pacto * ou contrato ou tende a acontecer numa relação social solidariamente sólida e duradoura.

 

As diferenças, as controvérsias ou desequilíbrios que se tentam acertar nos acordos, podem produzir detrimentos para as partes, eis porquanto um possível desacordo tende a conduzir as partes às vias de fato, transferindo a solução do impasse para as demais estruturas.

Os desentendimentos mais complexos se resolvem na estrutura dinâmica que observa os desníveis, as misturas e os cruzamentos de paradigmas ou parâmetros das partes buscando uma conciliação ou reconciliação por meio de cessões ou concessões.

 

O bom senso conduz ao consenso que define a solução das controvérsias na estrutura cinemática. Ajustam-se no sentido do benefício do todo tal que as partes possam prosseguir na relação comum.

 

 

Quando o prosseguimento da relação torna-se necessário, as divergências se resolvem por meio da deliberação das partes numa estrutura harmônica com regras e normas gerais que se pactuam cumpri-las sob determinadas condições aceitas e outorgadas.

 

Na relação do indivíduo com o meio ambiente, a análise da ação e reação é complexa. O sujeito da ação sobre certo objeto sofre uma reação contrária cuja equivalência de força é relativa e complexa, principalmente, se a relação for interpessoal.

 

A ação na estrutura social dinâmica tem a tendência de, costumeiramente, procurar desequilibrar o reagente, ou ao menos ter o desejo veemente de fazê-lo.

 

Em situação oposta, o agente pode-se defrontar com o fracasso, frustração e sucumbência experimentando os sentimentos negativos decorrentes.

 

 

Assim, a coragem, a expectativa, a motivação e o entusiasmo são sentimentos de conduta necessários para novas investidas no sentido de evitar o fracasso.

 

 

O objetivo da reação, habitualmente, é a estabilidade ou a manutenção da estrutura estática cujo reequilíbrio vai beneficiar o reagente mas não interessa ao agente relativo.

 

No campo das transações adequadas, a ação para a reação adversa e a reação contra a ação adversária, devem levar a um bom termo de tal sorte que os desequilíbrios a favor obtidos pelos seus protagonistas, respectivamente, também sejam favoráveis ao todo.

 

 

 

Por exemplo, numa transação de venda e compra de moradia, o vendedor quer o dinheiro e o comprador quer o imóvel. Cada um tem a sua ação própria ¾ a ação de vender e a ação de comprar ¾ correspondendo à reação respectiva. Para o comprador, a reação de pechinchar e para o vendedor, a reação de manter o preço ¾, que pode terminar no equilíbrio de forças ¾ o acordo, a conciliação, o consenso e o pacto ¾ cuja efetivação pode resultar em benefícios para as partes e para o todo, ao mesmo tempo. O comprador terá onde morar, o vendedor saberá como desfrutar o dinheiro; e, o todo ¾ a sociedade ¾, fruirá do dinamismo da circulação do dinheiro.

 

 

A ação saudável e dinâmica é a mola ou a alavanca da iniciativa, da aprendizagem e do desenvolvimento apoiada na solidez do conhecimento enquanto que a reação é a resistência ou luta por um ponto de apoio sólido para um reequilíbrio ou estabilidade. Esse ponto pode ser um apoio para o passo dinâmico ou para uma ação seguinte. A atuação, por seu turno, é reação e ação continuada ou alternada; mas, de maneira constante ou sucessiva, seletiva e qualitativa.

 

 

A atuação, portanto, por corresponder ao movimento contínuo e persistente pertence à estrutura cinemática. A movimentação cinética ou cinemática diz respeito à velocidade das reações e ações e os fatores que as influenciam determinando uma atuação acelerada, demorada ou retardada. Em síntese, a atuação é o processo de reação e ação, seletivas, em curso, na obtenção de um propósito definido. A atuação implica também na representação.

 

 

Por exemplo, o projeto, o planejamento, o método, a organização e os treinamentos simulados nada mais são que pré-requisitos para atuar melhor. São as formas simbólicas ou as situações virtuais ou potenciais que representam as realidades objetivas respectivas desejadas.

 

A movimentação numa estrutura cinemática restabelece o equilíbrio das relações em níveis sucessivamente superiores. A cada passo de um avanço dinâmico deve consolidar-se um sobrepasso estático que pode sustentar o seguinte dinâmico.

 

A movimentação numa estrutura harmônica reconhece, aprecia e considera a validade da estática, dinâmica e cinemática integradas com harmonia, em suas respectivas posições e momentos em que a situação exija.

 

 

Enfim, bom é identificar e reconhecer as diferenças específicas da reação, da ação, da atuação e da interação sociais para ampliar a compreensão das suas relações de causa e efeito, de motivo e conseqüência e de razão e resultado.

 

E, daí, na avaliação das ocorrências relevantes resultantes da vida social, com maior facilidade, poder-se-á obter o entendimento específico da sua autêntica relação de princípio e finalidade e os seus meios éticos utilizados.

 

 



* acordo, conciliação, consenso e pacto. O acordo está no nível imediato ¾ no primeiro momento. A conciliação vem do desacordo ou possibilidade de novo acordo ou reconciliação. Isto já ocorre num segundo momento. Na conciliação você cede um pouco e o outro transige também, com base em conhecimentos que convencem e de tal maneira que a relação persista. No consenso há o concurso do pensamento, razão, opinião, idéia e do debate em nível superior para buscar ou procurar uma solução para o impasse que obstrui a continuidade da relação ¾ encontra-se no nível de terceiro momento. Por último, o pacto põe bom termo às conexões, no quarto momento. É a convenção ou contrato integralizador, em nível biográfico ou histórico. O bom contrato é aquele cujos termos são deliberados por unanimidade de votos. É a integração do acordo, da conciliação e do consenso onde as partes aceitam e outorgam um caminho a seguir que todos devem respeitar sob pena de alguma sanção. Não havendo todos os termos deliberados para uma aceitação geral, a relação não persiste. Enfim, sem o pacto social não há a intersubjetividade, o intercâmbio entre as partes e não há o que interagir para depurar nada. Veja páginas 129 (acordo), 134 (conciliação), 135 (consenso) e 151 (pacto).